
“Identificamos que o modelo de gestão praticado hoje pelos bancos é um modelo de gestão pelo medo. Os atos de violência decorrentes desse modelo é a intimidação, humilhação e discriminação, que produzem transtornos de ansiedade, o maior transtorno que acomete hoje os trabalhadores das instituições financeiras, em função das metas abusivas e impossíveis de serem realizadas.”
O duro diagnóstico (confira no vídeo abaixo) é da psicóloga Ana Magnólia Mendes, professora titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), que coordenou no ano passado a pesquisa sobre “Práticas de Gestão, Violência e Adoecimento pelo Trabalho em Instituições Financeiras” encomendada pela Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Centro-Norte (Fetec-CUT/CN).
Realizada em parceria com os sindicatos filiados à Federação, a pesquisa procurou compreender as especificidades dos problemas de saúde dos trabalhadores do ramo financeiro na região Centro-Norte. O estudo é um aprofundamento da pesquisa nacional realizada em 2024 pela Contraf-CUT, também coordenada pela professora Ana Magnólia.
A pesquisa da Fetec-CUT/CN envolveu também a dimensão qualitativa e incluiu uma clínica do trabalho, na qual os psicólogos Paulo Cesar Rodrigues dos Reis Filho e Arthur Pires realizaram um trabalho de conversas individuais com bancários e bancárias já vítimas de adoecimentos mentais ou que apresentam sofrimentos psíquicos em relação ao trabalho.
‘Não existe felicidade no trabalho’
“Não existe a felicidade no trabalho. Essa é uma falsa promessa”, sentencia Ana Magnólia, doutora em Psicologia Social e do Trabalho, uma das mais destacadas especialistas em saúde mental, psicodinâmica do trabalho, sofrimento psíquico e riscos psicossociais no ambiente laboral.
“Hoje as empresas têm um discurso de promessa falaciosa, que eu chamo de discurso capitalista colonial, um canto de sereia, onde os trabalhadores terminam se automedicando, medicalizam seu próprio sofrimento pelo medo, o medo de ser descomissionado, o medo de ser demitido, mas acima de tudo o medo de ser constrangido, o medo de ser excluído, o medo de ser humilhado, o medo de passar vergonha”, constata a pesquisadora.
Para ela, “a vergonha é hoje um fenômeno que existe no ambiente de trabalho e faz com que o trabalhador entre numa modalidade de servidão voluntária, de submissão, de alienação, não porque ele quer, não porque ele é frágil, não porque ele tem esse perfil. É em função do modelo, do sistema de perverso de metas”.
‘O medo é usado como estratégia para nos tornar obedientes’
O medo de ser punido, de ser desprotegido, de ser desamparado, acrescenta Ana Magnólia, “são medos que fazem parte da constituição humana e que começam a ser fabricados por um discurso dentro da instituição, que vai por meio da intimidação produzir a ansiedade. Então, o medo institucional é o medo produzido, é o medo que tem como propósito manipular e controlar você que trabalha na instituição financeira. O medo é usado como uma estratégia de gestão, deliberada, para aterrorizar a nossa psiquê e fazer com que fiquemos obedientes”.
Confira o vídeo com a avaliação da professa Ana Magnólia.
Esse texto é o primeiro de uma série. Nas próximas semanas, a Fetec-CUT/CN vai apresentar, sempre acompanhados de vídeos curtos, mais informações sobre os resultados da pesquisa da Federação Centro-Norte.
E no dia 24 de fevereiro a Fetec-CUT/CN fará uma live com a participação da professora Ana Magnólia, que vai conversar pessoalmente com os trabalhadores e trabalhadoras do ramo financeiro no Centro-Norte os resultados da pesquisa e o combate às práticas de violência organizacional por parte dos bancos que levam a à epidemia de adoecimentos mentais que assola a categoria.
Fonte: Fetec-CUT/CN


