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PRESERVAR A SAÚDE

Fim da escala 6x1: OIT e OMS relacionam jornadas longas e pouco descanso semanal com aumento do adoecimento

6 de Maio de 2026 às 14:12


Desde 2009, relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que jornadas excessivas de trabalho estão associadas ao aumento de distúrbios do sono, esgotamento e maior risco de doenças cardiovasculares, com destaque para AVCs. A entidade afirma ainda que a redução da jornada diária, associada a pausas semanais que garantam a recuperação dos trabalhadores, reduz faltas por motivos de adoecimento.

Já segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2022, uma em cada oito pessoas no mundo convivia com algum transtorno mental, como depressão e ansiedade, especialmente mulheres e jovens.

Os dados foram apresentados no artigo “Trabalho que fratura, jornada que adoece: saúde mental e os impactos da escala 6x1”, publicado pela pesquisadora, doutora e psicóloga Vanessa Silveira de Brito, no portal do Instituto de Economia (IE) da Unicamp.

Ela explica que, enquanto a jornada longa (excesso de horas diárias comprometidos com o trabalho) aumenta riscos físicos e mentais, a escala 6x1 não permite a plena reparação, pois o tempo de não-trabalho de apenas um dia acaba sendo “transformado em mera preparação para o próximo ciclo de esgotamento”.

No Brasil, o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) relatou, em 2024, aumento de 68% nos afastamentos por motivos de saúde mental. "Esses números dialogam com alertas de organismos internacionais, que apontam crescimento contínuo dos transtornos mentais associados a condições laborais precárias e à intensificação das jornadas", reflete Vanessa no artigo.

A pesquisadora aborda ainda que os transtornos mentais e comportamentais configuram entre as principais causas de afastamento do trabalho e concessão de benefícios previdenciários hoje, no país, “evidenciando que o problema ultrapassa a esfera individual e assume dimensão coletiva”.

Escala 6x1: símbolo da lógica do esgotamento

Vanessa de Brito observa que os dados acima corroboram as críticas de diversos autores que, desde Marx, sinalizam que a distribuição do trabalho em favor da máxima produtividade resulta em fadiga, desgaste, esgotamento e envelhecimento precoce do indivíduo, que contribuem, por sua vez, à corrosão das relações sociais e prejuízos à organização coletiva da classe trabalhadora.

A pesquisadora ressalta ainda que a lógica atual do neoliberalismo que impõe a escala 6x1 e jornadas excessivas de trabalho é a mesma que incute nos trabalhadores a ideia de que o sofrimento é questão individual e de que cada um é sujeito empresarial de si mesmo, portanto responsável pelo seu sucesso ou fracasso.

Ela aponta também que por “transformar o descanso em exceção e a fadiga em rotina”, a escala 6x1 passou a simbolizar a lógica do esgotamento: "mesmo o dia destinado ao descanso é colonizado por tarefas, cansaços acumulados e preparação para o próximo ciclo laboral, reduzindo seu potencial reparador".

Na conclusão do artigo, Vanessa reforça que, desde Marx até os dias atuais, a luta pelo tempo continua a ser a luta pela vida. “Defender o fim desse modelo [escala 6x1] é afirmar o tempo como direito – direito à pausa, ao cuidado e à reinvenção dos desejos, direito que não se mede em produtividade, mas em possibilidade de viver”, pontua.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

Luta do movimento sindical cutista

Nos anos 2000, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) lançou, em conjunto com outras entidades sindicais, a Campanha Nacional pela Redução da Jornada de Trabalho sem Redução de Salário. Mais recentemente, em 2024, o tema voltou a ganhar força na sociedade, com a viralização do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT).

“O artigo da pesquisadora Vanessa de Brito é mais um entre muitos que corroboram os alertas que temos feitos todos esses anos, sobre os prejuízos da escala 6x1 e de jornadas de trabalho longas à qualidade de vida da população e à sociedade como um todo, porque além de ser prejudicial à saúde e aos laços sociais, a 6x1 é um modelo que induz à concentração de renda, ao impedir que as pessoas da classe trabalhadora tenham tempo apropriado para estudar e se qualificar”, explica Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da CUT Nacional.

A dirigente observa ainda que as mulheres serão as mais beneficiadas com o fim da escala 6x1. "Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2024, as mulheres representaram 63,8% das licenças por doenças psicológicas. Esse triste cenário de maior esgotamento mental entre as trabalhadoras é explicado por outra informação, do IBGE (PNAD 2022), de que as mulheres dedicam quase que o dobro (21,3h) do tempo dos homens (11,7h) aos afazeres domésticos e cuidados com familiares. Portanto, o fim da escala 6x1 é uma questão de igualdade de gênero, pois ao melhorar as condições de conciliação entre emprego e vida pessoal, permitirá melhor acesso e permanência delas no emprego formal”, completou.

Leia também: Audiência no Senado vai debater escala 6x1 como forma de violência estrutural contra as mulheres

Por causa do aumento da pressão popular pelo fim da escala 6x1 e redução da jornada sem redução salarial, o Congresso Nacional voltou a encaminhar propostas relacionadas. Uma delas, aprovada em dezembro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, é a 148/2015, de autoria de Paulo Paim (PT-RS), para reduzir de forma progressiva a jornada semanal das atuais 44h para 36h, com garantia de dois dias de descanso remunerado.

Em abril deste ano, a CCJ da Câmara dos Deputados aprovou a PEC nº 221/2019, de teor semelhante, de autoria de Reginaldo Lopes (PT-MG) e que hoje tramita agregada à PEC nº 08/25, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP).

Articulado a esses movimentos, também em abril, o presidente Lula enviou ao Congresso Nacional e em regime de urgência o Projeto de Lei 1.838/2026, que estabelece o limite de 40 horas semanais e dois dias de descanso. Nesta semana, a Comissão Especial da Câmara dos Deputados divulgou que a votação da pauta desse projeto começará dia 26 de maio.

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Fonte: Contraf-CUT

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