
Existe um dito popular que diz: “cada um por si e Deus por todos”.
Esse ditado quer dizer que, em momentos de dificuldade, cada um tem que cuidar de si mesmo e dos próprios interesses, restando a proteção divina para amparar a todos de forma igualitária.
O ditado reflete bem a sociedade em que vivemos: pessoas muito voltadas para os próprios umbigos, sem se importarem muito com o que é coletivo.
Mas não é com esse objetivo que o ditado foi evocado. O intuito aqui é falar sobre o outro personagem da expressão: Deus. Independentemente de acreditarmos ou não nele, o ditado também nos remete à seguinte reflexão: se todos pensam somente em si próprios, é necessário que exista alguém que pense no que é coletivo. Caso contrário, o caos pode comprometer a todos.
É imprescindível para a sociedade que existam estruturas e pessoas voltadas para o senso comum, para o que é de todos, para cuidar para que as estruturas funcionem, até mesmo para garantir condições para que aqueles que só pensam em si consigam alcançar seus objetivos egoístas.
E quem pode ser essa entidade ou pessoa na organização? Podem ser os pais, dentro da família; o Estado, em relação à sociedade; um líder dentro de uma comunidade ou, até mesmo, aquela pessoa que, dentro da unidade, se preocupa em enfeitar a estação de trabalho no dia de seu aniversário. São inúmeros os exemplos.
Na relação entre capital e trabalho, esse indivíduo é o sindicato. A organização criada, dentro de uma luta desproporcional, para defender os interesses da classe trabalhadora contra a opressão do capital.
Soa como clichê, mas não é! Existe uma disputa por espaços e por recursos que são escassos, e um grupo muito pequeno, no caso, famílias, se apropria daquilo que é fruto do esforço de muitos e só consegue ter sucesso porque é organizado e, por conta disso, ocupa as estruturas de poder.
Os bancos, puxando para o nosso universo, possuem uma organização que representa seus interesses: a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), fundada em 1967, em São Paulo, é uma instituição civil sem fins lucrativos que reúne a grande maioria dos bancos do país. Tal federação possui um braço sindical, que é o responsável por defender os interesses dos banqueiros junto a seus empregados, a Federação Nacional dos Bancos (FENABAN), que é quem se senta à mesa para negociar com a categoria bancária. O objetivo da FENABAN, entre outros — e é a história que nos mostra isso —, é diminuir cada vez mais os direitos dos trabalhadores do ramo financeiro e, para isso, não mede esforços.
Desde a contratação de experts em negociação, despesas com especialistas em diversas áreas, estudos, investimentos em lobistas e outras práticas nada republicanas, a federação patronal tem se dedicado, de forma cada vez mais explícita e indecente, a impor aos bancários e bancárias acordos que retiram direitos e aumentam a exploração.
Por se tratar de uma associação civil de direito privado, a Febraban não possui a obrigação de publicar quanto arrecada de seus associados e, muito menos, quanto gasta em suas atividades, mas sabemos que o lucro líquido dos bancos brasileiros chegou a R$ 255 bilhões em 2025. A pergunta é: será que os bancos possuem recursos para colocar nas federações que representam seus interesses?
Fazendo isso, qual a possibilidade de terem sucesso?
Do outro lado da balança, estão os trabalhadores e suas organizações legais de representação, no caso, sindicatos, federações, confederações e centrais sindicais. É a estrutura que, dentro dos respectivos espaços de atuação, se senta à mesa para negociar com os patrões e, quando necessário, recorre aos tribunais para defender o direito de seus representados.
A estrutura sindical é sustentada por recursos vindos do próprio trabalhador, a saber: contribuição sindical (facultativa, desde a reforma trabalhista de 2017); contribuição associativa ou mensalidade, valor pago espontaneamente por quem decide se filiar e se associar ao sindicato da sua categoria; contribuição assistencial ou negocial, taxa aprovada em assembleia da categoria para custear os gastos do sindicato durante as campanhas salariais e negociações de acordos ou convenções coletivas; e prestação de serviços e patrimônio, receitas vindas de serviços oferecidos aos associados (assistência jurídica, convênios médicos, colônias de férias, atividades lúdicas, como teatro, ou aluguel de espaços) e de rendimentos de bens próprios.
Por que toda essa conversa?
Acabamos de sair da campanha salarial de 2026 na Caixa Econômica Federal e, como toda campanha, não foi possível agradar a todos, nem atender a todas as expectativas.
Somando todo o processo, que não se iniciou nos últimos quatro meses, foram mais de 50 reuniões em locais diversos, viagens, hotéis, diárias, despesas com assessorias, divulgações, encontros regionais, congressos estaduais, por regiões e nacional, visitas a parlamentares e a integrantes do governo e do Judiciário e, por fim, um dissídio no TST.
Foi um processo longo, cansativo e caro. Extremamente caro! O que, neste quesito, com certeza, não teria sido problema para a Fenaban, mas que pesa muito no orçamento de diversos sindicatos país afora. Sindicatos esses que são cobrados constantemente pela base por não estarem presentes, pela comunicação ruim e, infelizmente, pelo resultado na campanha deste ano.
A pergunta mais frequente nos grupos de WhatsApp é: “como faço para me opor à contribuição assistencial ou negocial?”, como se as despesas com a campanha já não tivessem acontecido. Ou, pior: “como faço para me dessindicalizar?”, como se a luta acabasse com o fim da campanha. E não é assim: voltaremos à mesa de negociação para tratar de problemas que ficaram pendentes e outros que irão surgir por conta da dinâmica das relações de trabalho. Sem falar que o resultado da luta se aplica a todos os empregados e não somente aos sindicalizados, não somente aos que contribuem.
A disputa entre os patrões nunca foi tranquila para os empregados, pois as estruturas pesam sempre favoravelmente para os donos do capital. Asfixiar economicamente os sindicatos enfraquece a representação e, consequentemente, a luta. E a luta nunca acaba, pois a ganância dos donos do capital, no nosso caso, dos banqueiros, é infinita.
Para finalizar, a pergunta que não quer calar: a quem interessa um sindicato fraco, sem expressão, sem representados e sem recursos?
A reforma trabalhista de 2017 introduziu a figura do hipersuficiente, trabalhador com diploma de nível superior e salário igual ou superior a dois pisos do INSS, que pode negociar diretamente com os patrões, sem a participação ou assistência do sindicato.
O intuito aqui é bem claro: criar condições que depois possam ser estendidas para todos os trabalhadores, em que a figura do sindicato possa ser retirada do processo negocial e cada trabalhador negocie diretamente com seu patrão, tipo um “cada um por si, só que sem um ‘deus’ para cuidar de todos”. Quanto tempo os direitos da classe trabalhadora resistiriam se essa hipotética situação passasse a vigorar?
Pois é...
Na segunda-feira, dia 5, até a quinta-feira (8), o sindicato estará, conforme decisão do TST, abrindo espaço para os empregados da Caixa Econômica Federal fazerem oposição à contribuição assistencial-negocial.
Que cada um pense de forma séria e responsável na qualidade da luta que quer para os próximos dois anos, quando enfrentaremos os banqueiros em nova campanha salarial. Não é dinheiro para os sindicatos, mas dinheiro para a organização que representa a categoria e a conduz na luta por seus direitos.
Antonio Abdan é secretário de Formação Sindical da Federação Centro-Norte, dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e representante da Fetec-CUT/CN na mesa de negociação da Caixa Econômica Federal (CEE/Caixa)


