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9 de Janeiro de 2018 às 09:00

Sobre a reestruturação no BB


Crédito: SEEB/PA

*Por Fábio Gian

Nesta minha primeira mensagem de 2018, dirijo-me a todos os bancários do Banco do Brasil, especialmente aqueles que, na última sexta (05), perderam suas funções.

Naquele dia bem cedo, recebi os normativos do Plano de Adequação de Quadros (PAQ) em um dos muitos grupos de whatsapp e um dado me chamou a atenção de imediato: o nome do programa.

Para quem não se lembra, esse era o nome do plano de demissões que foi implementado pelo banco em 1995 (trocava-se adequação por ajuste). Implementado no início da era Fernando Henrique, aquela reestruturação durou 3 anos, sendo que em 1995, nós éramos 120 mil empregados e, ao final de 1998 restavam apenas cerca de 70 mil trabalhadores no BB, levando milhares de desligamentos compulsórios, sendo pouco mais de 13 mil via PDV. Um outro dado tenebroso da época foi o número de suicídios ocorridos entre os bancários do BB, entre 95 e 96, cerca de 20 funcionários tiraram suas vidas, fato até hoje nunca reconhecido pelo BB como estando relacionados ao ambiente de trabalho*.

Entre os muitos dados preocupantes desse plano atual é justamente seu real objetivo, já que traz em seu nome o termo “adequação” para regularização de quadros de unidades com excessos, pois a questão que fica: o que acontecerá com aqueles bancários que permanecerem como excedentes e que não aderirem ao plano? Um amigo me respondeu “continuarão excedentes”. Gostaria de acreditar nessa resposta, mas no momento, minhas dúvidas superam minha fé.

E se assim fosse (continuarão excedentes) por que então o próprio normativo não previu essa situação? Temo por essa resposta. Espero que sejam apenas divagações de minha mente e que tais especulações sejam as mais distantes possíveis das reais intenções dos executivos do BB, que, desumanamente, na década de 90, desligou milhares de trabalhadores de seus quadros. Hoje, milhares de trabalhadores, no Pará e em todo o Brasil, perderam suas vagas nas unidades do Banco do Brasil.

Mas o que esperar de um governo que, em pouco mais de um ano, alterou mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), destruindo diversos direitos dos trabalhadores e ainda paga milhões de reais para a grande mídia entrar em nossos lares e afirmar que a “reforma trabalhista” é bom para o trabalhador? Como dizia uma antiga gíria: o governo Temer e a diretoria do Banco do Brasil estão pouco se lixando para nós.

Ainda na sexta pela manhã me dirigi ao prédio do BB na Humaitá, sede de diversos órgãos e agências, juntamente com a companheira Tânia Barbosa, também funcionária do Banco e dirigente jurídica do Sindicato dos Bancários do Pará. Foi quando então descobrimos que a agência Escritório MPE havia sido encerrada e, como sempre, seus funcionários só ficaram sabendo quando chegaram para trabalhar e viram que a dotação da unidade estavam todas zeradas. Alguém do BB havia me dito que 2018 seria o ano do relacionamento (assim como 2017 foi ano do atendimento). Que coisa hein!

Esta agência do MPE existia há cerca de um ano e contava com aproximadamente 15 funcionários, entre gerentes e assistentes, todos especialistas no segmento empresas. Na época de sua inauguração, o presidente do BB havia concedido uma entrevista para a revista CIAB FEBRABAN, ed. 66, onde anunciava “(…) investir na criação de mais de 255 pontos de atendimento digital. Serão mais de 500 dessas unidades, até o fim de 2017, entre agências estilo e escritórios digitais(…)”**. Eu queria poder perguntar ao presidente o que justifica, então, o fechamento do MPE aqui no Pará? E o mais importante: para onde irão os funcionários dessa agência já que o BB lhes deu o prazo até final de janeiro para “procurar” vaga sabe-se lá onde?

Também pude conversar com funcionários do Escritório Exclusivo, onde também houve perda de vagas. A desolação nesses ambientes que pude visitar na sexta-feira e que foram afetados por essa violenta reestruturação é imensurável. Relatei que estudamos medidas judiciais, mas que nossas perspectivas nessa esfera já não são tão boas dada a nova legislação trabalhista.

Após ouvir os relatos de meus colegas, senti o mal que essa empresa tem causado aos seus empregados no quesito qualidade de vida. Não é de hoje que os bancos produzem adoecimentos entre seus funcionários. Basta olhar a quantidade de artigos acadêmicos disponíveis em periódicos científicos que tratam do adoecimento da categoria bancária e sua relação com essas reestruturações.

Creio que a saída é pela política. Não olhe apenas para a eleição de 2018 como eleição presidencial. Lembre que serão renovadas todas as cadeiras da Câmara Federal e dois terços do Senado, além de todos os governos estaduais e assembleias legislativas dos estados. Vote naqueles candidatos ou candidatas que possuam um histórico de lutas em defesa da classe trabalhadora e de comprometimento real com o povo pobre. E por amor de tudo o que é mais sagrado, não vote em nenhum candidato que aprovou a reforma trabalhista.

Mas a política a qual me refiro é a do dia a dia. As lutas estão aí na porta como as que combatem a reforma da previdência, prevista para votação no parlamento em fevereiro. Não deixe passar. Vamos para as ruas protestar. Quando os sindicatos chamarem para assembleia e paralisações, compareça, participe. Quando o cliente lhe abordar na agência, não o encaminhe para os correspondentes bancários. Atenda-o e mostre que nosso trabalho bancário é importante (porque, de fato, é muito importante) e que uma máquina ou aplicativo jamais substituirá um ser humano. Se esse cliente lhe procurou é porque confia no seu trabalho. Existem centenas de formas de fazer essa disputa diariamente.

Ainda que as lágrimas agora caiam e suas forças pareçam exauridas, saiba que é exatamente esse o desejo daqueles que querem nos derrotar: o governo Temer e a diretoria de banqueiros do BB. Então não é uma boa hora deixar se abater. Lembre que resistimos na década de 90 e aquela geração de bancários impediu o BB de ser privatizado. Precisamos fazer o mesmo agora através da luta por democracia e que 2018 seja o ano do resgate da soberania popular.

Algumas dúzias de diretores e de executivos não são maiores que milhares de bancários, assim como um governo ilegítimo não é maior que o povo brasileiro. Mas isso precisa ser internalizado e construído. Entre nesse combate por democracia, direitos, respeito e dignidade, tudo que esse governo nos tirou. Todas e todos somos fundamentais nesse momento.

E mais como curiosidade e como inspiração. Hoje é aniversário do maior movimento popular de revolução da história do Brasil, ocorrido há exatos 183 anos aqui, na antiga Província do Grão Pará, em 07 de janeiro de 1835, conhecido como Cabanagem que, embora não tenha atingido todos os seus objetivos, fez tremer o império brasileiro naquela época. É nessa guerra que aparece o cônego Batista Campos, na minha opinião, o maior líder popular da história da região norte do Brasil e que dá nome a praça mais linda de Belém e também é o nome da minha agência querida.

Vamos nos inspirar naqueles antigos paraenses e fazer a luta acontecer.

*Fábio Gian Pantoja é funcionário do Banco do Brasil, diretor regional da ANABB no Pará e diretor de seguridade social/saúde do Sindicato dos Bancários do Pará – (91) 98252-9231

* Para maiores informações acerca desse período, sugiro a leitura do livro “Reestruturação e o fim da segurança no emprego no Banco do Brasil”, de Francisco F Alexandre, de 2002.
** Veja entrevista com o presidente do BB neste link: http://www.ciab.org.br/publicacoes/edicao/66/entrevista-com-paulo-caffarelli


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